sábado, 14 de maio de 2011


Ecosofia, redes digitais sustentáveis e os efeitos da tecnologia no homem moderno

Por André Bürger, do Nós da Comunicação
A busca por uma dimensão ecossistêmica e não mais antropocêntrica das relações do homem com o meio ambiente é um dos conceitos defendidos pela Ecosofia, novo campo de conhecimento que integra as ciências humanas, naturais e econômicas. O tema foi o assunto principal do 46º Encontro Aberje, realizado pelo capítulo Rio da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje), na Universidade Petrobras, com o apoio do Centro de Pesquisa Atopos, ligado à Escola de Comunicação da USP.
Foram convidados o professor Michel Maffesoli (foto), da Universidade de Paris-Sorbone e vice-presidente do Instituto Internacional de Sociologia; e Derrick de Kerckhove, diretor do McLuhan Program in Culture and Tecnology e professor de Letras da Universidade de Toronto, no Canadá.
O conceito vai muito além dos estudos da Ecologia. Nesse campo ligado à filosofia, como explicou Maffesoli, o sujeito egocêntrico perde espaço para uma visão mais sistêmica da realidade e da natureza. O consciente coletivo, nossa cultura, é o elo integrador. Para o professor, a Ecosofia é uma proposta de retorno mental a esse coletivo. “É a completude, mas não a busca da perfeição. É um equilíbrio entre o lado racional e o lado primitivo do homem”, definiu.
Para o pensador, a pós-modernidade é barroca, já que voltamos a uma animalidade, até então esquecida. Ele apontou um reflexo disso na moda, na música e nos jovens. Uma volta ao primitivismo que, em doses homeopáticas, pode evitar um surto de bestialidade como foi retratado, segundo Maffesoli, durante o Holocausto.
“Quando observamos a propaganda na França, por exemplo, vemos elementos estereotipados dos arquétipos culturais da sociedade. Essa imagem comum a todos é usada frequentemente na linguagem publicitária”, contextualiza. Maffesoli deu como exemplo a mobilização mundial em torno do casamento real do príncipe William e da futura princesa Kate, na Inglaterra. “Essa união vai fazer com que todos, mesmo aqueles que não são ingleses, comunguem em função da ocasião, pelo fato de um príncipe estar se casando com uma plebeia. O mito do matrimônio desperta uma segmentação arcaica que faz com que nos liguemos uns aos outros”, explicou.
Acontecimentos desse tipo, até mesmo o funeral da princesa Diana, observou o professor, demonstram que, muito mais importante do que a consciência de classe é o sentimento de pertencimento. Seja ele sobre o ambiente virtual, como as redes digitais ou os espaços físicos, como nossas casas ou bairro. “Não vivemos mais um logocentrismo. Pelo contrário, estamos entrando em um estágio de ‘lococentrismo’, que privilegia o espaço e a matéria”, observou.
O tempo e o hipertexto
Em sua fala, o professor Derrick de Kerckhove destacou a diferença entre a inteligência coletiva e a inteligência conectada, que é quando os diferentes conhecimentos da sociedade estão alinhados em harmonia. Após apresentar uma panorâmica sobre a evolução do homem em relação à escrita, desde a comunicação oral até os dias de hoje, Kerckhove concluiu que com a internet houve uma aceleração dos meios de informação e do contato interpessoal. “O pensamento hipertextual é uma questão de tempo e não de espaço. Como dizia Marshall McLuhan: o pensamento é mais rápido que a luz”.
Entretanto, ele apontou consequências negativas da alta velocidade comunicacional e grande conectividade virtual. “Estudos apontam que as pessoas já não conseguem reconhecer bem as fisionomias. As relações interpessoais foram afetadas pela prática excessiva dos contatos por meio do computador”, alertou.
Como metáfora dessa forma de raciocínio moderno, o professor descreveu duas situações: a mecânica da web semântica e suas tags. Um espaço onde todos os links são feitos em tempo real. “São projeções da divisão do trabalho entre os dois hemisférios do cérebro”, explica. Outros exemplos são o formato de organização das informações em cloud computing, uma espécie de agregador de conhecimento, e na Wikipédia, enciclopédia colaborativa e virtual.
Kerckhove ressaltou que, com diversos avanços – touch screen, projeções holográficas, por exemplo –, o corpo humano tornou-se uma extensão dessa tecnologia. “Estamos imersos nessa extensão, como previu McLuhan. Sem a Ecosofia e sua proposta de equilíbrio, essa evolução levará o homem e seu mundo a um colapso. Nada é perfeito, mas começamos a ver uma nova atitude de pensar as coisas de maneira positiva. E a Ecosofia estará ao alcance de todos.”
 
fonte:http://www.plurale.com.br

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