domingo, 26 de janeiro de 2014

E dá-lhe esterco no reboco!



Pode parecer esquisito, mas muita gente, especialmente na roça, sabe (ou soube um dia) que incluir esterco na massa para rebocar paredes é uma ótima maneira dereduzir as rachaduras provocadas pela terra crua. Aqui em casa, tenho várias paredes rebocadas com terra e esterco. Todo o mezanino da casa, feito em pau-a-pique, levou três demãos de reboco de terra, areia e esterco. No meu quarto, a parede de adobe (tijolo de terra crua) também contou com esterco na massa.
Semana passada, tive de ir atrás de estrume de vaca para um novo reboco na parede externa do quarto de visitas, construída com a técnica do superadobe (ou terra ensacada), e que estava precisando de uma manutenção – porque o reboco original, exposto ao sol e às chuvas, não aguentou as intempéries e acabou tendo uns pedaços descolados da estrutura da parede. O jeito foi desmanchar e fazer tudo de novo.

Eu até poderia fazer um post sobre isso, explicando que a parede não fica com cheiro ruim, e que não há problemas em manusear a massa com as mãos… Mas, na verdade, a história que eu queria compartilhar é sobre como consegui dois sacos enormes de esterco fresco – entenda: mole, verde e com cheiro beeeeem marcante (para usar um termo, digamos, mais elegante) – para levar até minha casa e entregar, com cara de feliz, ao pedreiro que topou me ajudar nessa empreitada.
Quando a necessidade surgiu, eu pensei em buscar o esterco no meu carro, forrar o porta-malas com papelão e bater na porta do dono do sítio que cria gado leiteiro e já forneceu a matéria-prima para nossos cursos de bioconstrução feitos por aqui. Mas, por sorte, um amigo da ecovila se ofereceu para me levar no carro dele, que tem uma caçamba grande e é bem mais apropriado do que o meu para esse tipo de serviço.
Bom, como sorte pouca é bobagem, esse meu amigo é agrônomo e sabe direitinho como chegar em um sítio e, em questão de segundos, engatar o maior papo com quem quer que esteja no lugar (bem diferente de mim que, nessas horas, ainda me sinto muito urbanoide).
Diz aí, Pirulito, muito trampo? – foi o cumprimento do meu amigo ao funcionário do sítio que nos recebeu na entrada.
É, é a vida… Tem que trabalhar para comer todo dia. Mas tá bão assim.
Foi sorte também eu ter trocado, minutos antes de sair de casa, o tênis cinza limpinho por uma botina reforçada, que me dava um ar menos distante daquele mundo. Na primeira pisada, meu pé ficou forrado de esterco…
Chegamos na hora do trato das vacas. Era preciso esperar o fim da refeição e a retirada dos animais para, só então, ir até o cercado onde elas costumam ficar – e fazer parte de suas necessidades fisiológicas. Ficamos ali um bom tempo. Eu mais ouvia do que falava qualquer coisa. Estavam conosco o dono do sítio, o filho dele, o tal Pirulito e, mais tarde, a moça que também ajuda no trabalho com as vacas.
O papo me surpreendeu em diversos momentos. O filho do dono do sítio falava sobre novos financiamentos bancários para pequenos agricultores, comparando taxas de juros, inflação, rendimento em aplicações financeiras. Depois perguntou sobre se tínhamos internet na ecovila. Falou que o modem dele não era 3G, mas tinha um cabo “x” e uma conexão “y” que não estavam funcionando bem. Uma intimidade com a coisa que só vendo.
Em seguida, ele comentou sobre tentativas de tratamentos naturais nas vacas, como homeopatia e remédios fitoterápicos para combater carrapatos, vermes, essas coisas. Meu amigo é agricultor orgânico, conhece bem isso tudo e, discretamente, falava sobre os benefícios dos caminhos mais naturais.
Curioso foi notar como o ritmo é diferente no campo. Não tem essa história de chegar, dizer bom dia, contar que precisa de esterco, pedir licença e começar a juntar montes e montes para levar embora. Não, não. Tem que esperar, entrar na conversa, apoiar o pé na cerca, enfiar a mão no bolso, comentar sobre as chuvas, enfim, não se pode ter pressa nem querer ser muito prático, objetivo…
Não importa se você chegou por causa do esterco. Tem que ouvir as histórias dos frangos, dos ratos atacando a ração do gado, do vizinho que não entrega mais o leite para o laticínio da região, do corte na energia elétrica que deu um prejuízo de mais de mil litros de leite etc. etc. etc.
Eu confesso que tinha mil coisas para fazer em casa naquele dia e pouco tempo para conversas e devaneios. Mas era o jeito. Não havia outra maneira! E isso, aprendi ali, na hora, vendo que o importante da vida é o agora, é a troca com o outro. O resto é o depois.
Papo vai, vem e foi, chegou a hora de mexer no esterco. Eu, meu amigo e a moça que trabalha no sítio fomos até o cercado das vacas. Cada um pegou um tipo de rodo grande, para “varrer” o esterco para o centro e, assim, poder ensacar e levar o que eu precisava. De início, o cheiro forte me incomodou um pouco, mas logo comecei a me divertir com aquilo.
Até que, sem querer, meu amigo espirrou um monte de estrume na minha calça, na minha blusa, no meu cabelo… E, para piorar, na hora de ensacar eu fiquei segurando a boca do saco para ele encher com pás e pás de esterco, o que tornava impossível manter as mãos limpas…
Por fim, conseguimos dois sacos grandes, pesadíssimos. Forramos a caçamba da caminhonete, carregamos tudo, agradecemos a ajuda e fomos embora com a roupa in-tei-ri-nha cheia de estrume.
Em casa, o pedreiro me viu chegando toda verde de esterco, com o cabelo bagunçado e cara de cansada, arregalou os olhos e estampou na testa um ponto de interrogação. Antes que ele dissesse algo, emendei:
Taí o esterco de que lhe falei. Não precisa ter nojo, não. É o cheiro do campo… Uma delícia…
No dia seguinte, alguns pedreiros que trabalham na ecovila se juntaram diante da tal parede para conversar sobre como seus avôs (lá no interior de Minas, da Bahia, de Sergipe e outros confins) usavam esterco para fazer suas casas, seus fornos de barro, seus fogões a lenha… A disputa – veja só – era pela melhor história sobre esterco… Dá pra acreditar?

Foto: uma das paredes que reboquei com terra e esterco. Na quase pose para a foto, minha mão até que ainda parecia limpinha…

fonte: http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/gaiatos-e-gaianos/e-da-lhe-esterco-no-reboco/

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